Carta para não chegar

Querido, Chico.
Escrevo-te esta carta para me despedir.
Estou partindo com destino incerto,
não sei onde chegarei,
mas sei que não há volta.
Desconheço se viverei, morrerei,
vagarei ou passarei o resto de meus dias em algum lugar de julgamentos,
mas nada disto tem um sentido real para mim.
A vida não é mais como costumava ser, meu caro.
Sei que nada pode ser pior do que onde estou,
do que me tornei.
Não há dor, mas também não alegria.
O amor se foi,
a saudade morreu,
a esperança sumiu
e os sonhos não sei onde foram parar.
Tornei-me este poço sem fundo preenchido de melancolia e saudosismo.
Lembro de nossos dias na praia
e consigo até pintar um sorriso em meus lábios.
Você, tão jovem, aspecto másculo e os cabelos que não se comparam
a estes fios de nuvem que agora deve ter.
Agradeço-lhe por me proporcionar aqueles momentos de prazer,
eles ainda servem para me deixar perdida no passado.
Não sei o que sentirá ao receber esta carta,
será que seu coração ainda aloja sentimentos ou tornou-se esta rocha que possuo dentro do peito?
Meu doce Chico, ao pensar em tais palavras sou capaz até
de sentir o calor do seu corpo contra o meu naqueles dias de felicidade plena.
Agora eu sou bicho perdido, não tenho bando e nem fome para caçar.
Meu uivo não passa de silêncio.
Sou escrava do tempo e este se converte em tédio a todo instante.
Figuro seus netos em minha mente, devem ter seus olhos azuis,
se fossem nossos talvez tivessem os meus, castanhos-jabuticaba (como você costumava dizer).
Não pense que é amargura, já te disse que não sou capaz de sentir o que quer seja,
são só os pensamentos fazendo morada no vazio da mente.
Meu eterno Chico, acabo de perceber o quanto divaguei neste pedaço de papel.
Queria apenas agradecer por ter me feito conhecer as boas sensações,
estas que agora desejo tanto sentir, mas conformo-me com a impossibilidade.
Todo o amor que um dia morou em mim será sempre teu,
ainda que hoje não passem de filhos da memória.
Despeço-me agora com um adeus para nunca mais,
só um instante, alguém está batendo na porta, deve ser o carteiro com a correspondência trocada.
- Francisco?

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