Pé no saco

Eu sou assumidamente um pé no saco.
Atualmente, ser um pé no saco é sinônimo de não se omitir.
Não, eu não gosto de encrenca ou discussão.
Porém, para evitar isso é preciso ser indiferente.
Como agir assim se a injustiça me destrói,
a maldade me dói
e o preconceito me corrói?
Vivemos numa era de 8 ou 80.
Se você não é do lado B, significa que é do lado P.
Como se não houvesse meio termo, equilíbrio, individualidade.
Eu não me iludo e, consequentemente, eu não me calo.
Eu não me eximo da responsabilidade de lutar pela verdade.
E não é a minha verdade numa forma egoísta,
como se apenas houvesse um ponto certo - ou cego.
É a verdade pura, crua, dura, real.
Aquela que insistem em transformar,
mascarar e minimizar por meio de gritos que não dizem nada.
Sinto que nos perdemos no caminho,
numa era de endeusamento da crueldade, do desamor, da desumanidade.
Deixamos de olhar o outro para inflar o nosso ego,
como se o mundo não apenas girasse em torno dele,
mas também devesse ser comandado por ele.
Afinal, dar importância ao próximo não faz sentido
quando podemos anunciar no megafone do egoísmo: foda-se tudo que não diz respeito a mim.
Esquecemos que somos perecíveis e efêmeros.
Nada é nosso, além do que somos de fato.
A mensagem que podemos semear é tudo o que podemos fazer em prol do outro.
Nos tornamos uma sociedade que julga os assassinos,
mas capaz de matar quem não concorda conosco.
Dizemos ser contra a corrupção,
mas a defendemos com unhas e dentes se ocorre a nosso favor.
Enchemos o peito para apoiar a morte lenta e cruel
da democracia, do fim dos direitos tão dificilmente conquistados.
Saudamos a coragem, mas só a exercemos escondidos sob a máscara de uma máquina.
Já escreveu Manoel de Barros "não sou da informática: eu sou da invencionática".
Possivelmente foi aí que os tempos se tornaram sombrios,
quando o olho no olho foi trocado pelo olho na tela.
A mentira ganhou nome chique. Agora é fake news.
A intolerância e a hipocrisia foram eufemizadas como "ser de bem".
A censura mudou de significado: vale calar a voz do outro se ela destoa da nossa.
Até Jesus colocaram no meio da bagunça.
Às vezes imagino que Ele passe o dia todo pedindo para Deus não enviar outro meteoro.
"Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem".
Mas será que não sabemos mesmo?
As pessoas perderam sua personalidade.
Ninguém é mais Maria, João, José ou Antônia.
Deixamos de "ser" para "somos".
Se concordamos, somos farinha do mesmo saco.
Se discordamos: um pé no saco.

Obs: texto autoral que, provavelmente, contém a minha verdade,
que pode não ser toda a verdade, a sua verdade ou verdade alguma, afinal.
Por que celebrar apenas um dia
se todos são especiais
quando existe amor?
A vida é efêmera.
Ilusoriamente, acreditamos que é eterna.
Então, em vez de viver o agora,
fazemos dele uma rota para o depois.
Cultive o amor agora.
Faça dele o seu jardim
em outros corações.
Nem todas as plantas
precisam ser regadas para florescer,
mas toda vida precisa
ser adubada com sorrisos para permanecer.
Fecho os olhos e me conecto com a minha alma.
É um encontro de velhas conhecidas
que ficam um tempo sem se ver,
embora habitem o mesmo tempo e espaço.
Uma fica ali, em silêncio,
esperando que, a outra, que grita, se cale.
Só assim ambas podem se ouvir.
Sem palavras.
Quando se unem
e se tornam uma só.
Afinal de contas, são uma só.
Uma carne,
outra espírito.
Uma intensidade,
outra calmaria.
Uma perdida,
outra caminho.
Uma amor,
outra luz.
Juntas:
gratidão.
Sejamos, neste mundo de pedras na mão,
quem desarma com amor e (c)oração.