Quero fazer lar em teu corpo
e viver como tatuagem.
Despindo medos
e vestindo coragem.

Quero enxergar além do que se vê
e desbravar todo o teu ser,
como o caminho que me leva
ao encontro de me perder.
Metade de mim não é o suficiente.
Só sei ser por inteiro.

Me entrego
e mergulho,
mesmo quando sinto medo.

Vamos de mãos dadas:
eu e minha intensidade.
Como um par de (des)encontros à flor da pele,
cru e nu como a verdade.

Quarentena

É tempo de pausar.
Respirar,
acolher e
compreender.

É tempo de refletir,
se autoconhecer,
evoluir e
se encontrar ao se perder.

É tempo de ficar em casa
e entender que moramos em nós,
não importa o lugar em que estejamos.
É em nossa alma e essência
onde realmente habitamos.

É tempo de perdoar e perdoar-se.
É tempo de desapegar de tudo que não serve mais:
roupas, sapatos e sentimentos.
É tempo de gratidão
e de se permitir.
É tempo de falar menos e aprender a (se) ouvir.

É tempo de preservar a vida
e olhar para o que realmente tem valor.
Precisamos enxergar a nós mesmos
como num espelho que só reflete amor.
Dói perder alguém,
mas dói ainda mais perder quem somos.
A mesa manca me incomoda.
Balança de um lado,
empurro de outro.
Dobro um pedaço de papel
e apoio sua perna mais curta
até conseguir mantê-la estável.
Ao conseguir, sinto alívio.
A vontade de consertar a mesa que manca
é também a de remendar pessoas.
Aborrece ver uma mesa que, como eu, também precisa de equilíbrio.
Sou minha própria mesa desajeitada.
Enquanto busco voar, ser leve,
do outro lado um peso me puxa para o chão.
Momentos de alegria
são o guardanapo dobrado que me mantém de pé.
Sorrisos que vão e vem,
assim como as lágrimas,
na gangorra que é viver como uma mesa manca.
Talvez o erro esteja em querer me igualar às outras mesas
quando, na verdade, eu seja mesmo para ficar no ar.
Sinto, logo escrevo.
Escrevo, logo existo.