A mesa manca me incomoda.
Balança de um lado,
empurro de outro.
Dobro um pedaço de papel
e apoio sua perna mais curta
até conseguir mantê-la estável.
Ao conseguir, sinto alívio.
A vontade de consertar a mesa que manca
é também a de remendar pessoas.
Aborrece ver uma mesa que, como eu, também precisa de equilíbrio.
Sou minha própria mesa desajeitada.
Enquanto busco voar, ser leve,
do outro lado um peso me puxa para o chão.
Momentos de alegria
são o guardanapo dobrado que me mantém de pé.
Sorrisos que vão e vem,
assim como as lágrimas,
na gangorra que é viver como uma mesa manca.
Talvez o erro esteja em querer me igualar às outras mesas
quando, na verdade, eu seja mesmo para ficar no ar.
Sinto, logo escrevo.
Escrevo, logo existo.
Amar é como fazer um bolo sem receita.
Ninguém sabe se vai crescer.
Mas, se o amor é o ingrediente principal
e existe respeito em quantidade ilimitada,
a tendência é de que dê certo.

Carta para minha avó

Bênção, vovó.
(Sou capaz de ouvir sua resposta amável de sempre dizendo
“Deus te abençoe, minha princesa. Jesus que te ilumine!)
Como a senhora está?
Acredito que bem, de verdade.
Tenho essa fé de que vamos para um lugar melhor,
onde continuamos a plantar o bem e colher amor.
Assim como a senhora fazia por aqui.
Espero que a senhora tenha recebido minhas orações e também que não se entristeça quando,
vez ou outra, as lágrimas (teimosas como sua neta) insistem em cair.
Eu senti seu cheiro um dia desses e tive a certeza de que veio me visitar.
Obrigada, vovó.
Sei que a senhora gostaria de ter trazido bolo e pão de queijo, mas o abraço invisível me bastou.
E foi mais que o suficiente.
Continuamos sentindo sua falta e o ainda difícil é passar na porta da sua casa.
A saudade dói, mas acho que é devido ao amor ser grande demais, aí os dois acabam discutindo e,
na luta por espaço, um acaba apertando enquanto o outro transborda.
Gostaria de escrever mais, mas as palavras voam quando o coração consegue falar mesmo em silêncio.
Torço para que a senhora esteja vivendo rodeada de flores,
que tenha vizinhos amigáveis e esteja feliz, em paz.
Aposto que vive rezando por nós, mas não se preocupe, pois estamos todos bem.
Continuo tapando a orelha com o cabelo para não entrar bicho no ouvido
enquanto durmo e batendo os sapatos antes de calçá-los.
Gosto de ver vídeos do Padre Léo quando é possível e
entendo ainda mais por que a senhora gostava tanto dele.
Me pergunto se já teve a oportunidade de conhecê-lo - espero que sim.
Enfim, não vou mais tomar o seu tempo, vovó.
Só quero dizer que te amo incondicionalmente.
Nossa despedida temporária me fez entender
que é verdade quando dizem que o amor nunca morre.
Que alegria por isso.
Até qualquer dia, vovó.
Bênção. Fique com Deus.
Assinado: sua princesa.

Pé no saco

Eu sou assumidamente um pé no saco.
Atualmente, ser um pé no saco é sinônimo de não se omitir.
Não, eu não gosto de encrenca ou discussão.
Porém, para evitar isso é preciso ser indiferente.
Como agir assim se a injustiça me destrói,
a maldade me dói
e o preconceito me corrói?
Vivemos numa era de 8 ou 80.
Se você não é do lado B, significa que é do lado P.
Como se não houvesse meio termo, equilíbrio, individualidade.
Eu não me iludo e, consequentemente, eu não me calo.
Eu não me eximo da responsabilidade de lutar pela verdade.
E não é a minha verdade numa forma egoísta,
como se apenas houvesse um ponto certo - ou cego.
É a verdade pura, crua, dura, real.
Aquela que insistem em transformar,
mascarar e minimizar por meio de gritos que não dizem nada.
Sinto que nos perdemos no caminho,
numa era de endeusamento da crueldade, do desamor, da desumanidade.
Deixamos de olhar o outro para inflar o nosso ego,
como se o mundo não apenas girasse em torno dele,
mas também devesse ser comandado por ele.
Afinal, dar importância ao próximo não faz sentido
quando podemos anunciar no megafone do egoísmo: foda-se tudo que não diz respeito a mim.
Esquecemos que somos perecíveis e efêmeros.
Nada é nosso, além do que somos de fato.
A mensagem que podemos semear é tudo o que podemos fazer em prol do outro.
Nos tornamos uma sociedade que julga os assassinos,
mas capaz de matar quem não concorda conosco.
Dizemos ser contra a corrupção,
mas a defendemos com unhas e dentes se ocorre a nosso favor.
Enchemos o peito para apoiar a morte lenta e cruel
da democracia, do fim dos direitos tão dificilmente conquistados.
Saudamos a coragem, mas só a exercemos escondidos sob a máscara de uma máquina.
Já escreveu Manoel de Barros "não sou da informática: eu sou da invencionática".
Possivelmente foi aí que os tempos se tornaram sombrios,
quando o olho no olho foi trocado pelo olho na tela.
A mentira ganhou nome chique. Agora é fake news.
A intolerância e a hipocrisia foram eufemizadas como "ser de bem".
A censura mudou de significado: vale calar a voz do outro se ela destoa da nossa.
Até Jesus colocaram no meio da bagunça.
Às vezes imagino que Ele passe o dia todo pedindo para Deus não enviar outro meteoro.
"Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem".
Mas será que não sabemos mesmo?
As pessoas perderam sua personalidade.
Ninguém é mais Maria, João, José ou Antônia.
Deixamos de "ser" para "somos".
Se concordamos, somos farinha do mesmo saco.
Se discordamos: um pé no saco.

Obs: texto autoral que, provavelmente, contém a minha verdade,
que pode não ser toda a verdade, a sua verdade ou verdade alguma, afinal.
Por que celebrar apenas um dia
se todos são especiais
quando existe amor?